O Prazer no
Desprazer
Para conseguir
reconverter a energia vital (sexualidade) distorcida, será preciso encarar de
frente a maldade, na intenção de enxergar a dor que ela esconde e vive-la
novamente, mas de modo consciente, a fim de integra-la de uma vez por todas. Esse
é o caminho de volta para casa, ou seja, de volta para si mesmo.

Isso é o que
tenho chamado de “circulo vicioso do sadomasoquismo”. Como a palavra diz,
trata-se de um círculo vicioso em que existe prazer em machucar e ser
machucado, ou seja, a maldade é direcionada para o outro, mas também para si
mesmo. Isso porque no momento em que a energia vital é distorcida e passa a se
mover em direção à destruição, o prazer se conecta ao sofrimento. Esse é um
aspecto da psique humana que costuma ser de difícil compreensão. Para muitos,
isso pode parecer uma verdadeira loucura. Porque, em princípio, todos querem saúde,
paz, prosperidade e alegria. Mas por que para alguns é tão difícil realizar
esses desejos? Por que as situações negativas continuam sem que aparentemente
tenham controle sobre elas? O que ocorre é que desconhecem a existência do
prazer no sofrimento.
O exemplo mais
fácil para ajudar na compreensão desse conceito é a insistência de algumas
pessoas em permanecer em relações negativas, nas quais elas constantemente
experimentam o sofrimento. Algumas pessoas só conseguem sentir prazer em
situações negativas, como ao rejeitar ou ao serem rejeitadas. O que mantem o
sofrimento é o prazer que têm nele, mas elas não percebem isso. Esse prazer, na
maioria das vezes, é associado a uma vingança. Certa vez, numa dinâmica de
cura, um homem entrou em catarse. Ele estava vivendo um momento muito difícil na
vida: embora fosse excelente profissional, com potencial reconhecido por
muitos, ele não conseguia trabalho, estava endividado, com sérias dificuldades
financeiras. Além disso, sua saúde estava bastante debilitada. Ao trabalhar
assuntos relacionados ao pai, teve uma crise de asma que lhe permitiu
identificar e expressar um tremendo ódio. Ele tomou consciência de que sentia
humilhado pela rejeição e falta de reconhecimento do pai. Num momento de
intenso ódio, ele expressou para o pai: “eu vou afundar mesmo! Vou ficar cada
vez pior e vou morrer, para que você possa depois morrer lentamente de culpa”. Era
visível o prazer que ele tinha neste pacto de vingança.
O laco entre a
corrente vital (prazer) e o sofrimento pode ser tão forte que algumas pessoas
tem a sensação de que irão morrer se abrirem mão de certos padrões negativos. Um
exemplo claro são os vícios, mas isso também pode manifestar na dificuldade de
ganhar dinheiro ou de realizar-se profissionalmente. Isso ocorre porque a
identificação com o determinado aspecto do eu inferior é tão forte, que a
pessoa, inconscientemente, acredita ser aquele aspecto. Então, abrir mão desse
determinado aspecto é o mesmo que morrer.
Como disse,
conceitos como esses podem ser difícil compreensão, mas se puder abrir para
eles, procurando ampliar sua percepção, certamente você começará a observar
exemplos disso no seu próprio dia a dia. Para podermos ir além da
destrutividade, se faz necessário compreender profundamente a sua natureza. Quanto
menos a consciência sobre o desejo pelo negativo, maior será o desespero pelo
positivo. Corremos aceleradamente atrás do positivo, mas nunca o alcançamos, porque
há uma força contrária nos segurando. E quanto mais esforços colocarmos nessa
busca, pior será nossa situação, porque vamos precisar lidar com mais
frustração. O constante fracasso reforça nossa insegurança e nossa sensação de impotência
diante da vida. Muitas vezes, simplesmente perdemos as esperanças e nos
tornamos céticos em relação à possibilidade de existir felicidade.
Se desconhecemos
a existência de um desejo pelo negativo dentro de nós mesmos, ou seja, se não
reconhecemos que somos nós que escolhemos dizer “não” para a felicidade,
inevitavelmente acabaremos acreditando que somos vítimas e tentaremos encontrar
culpados. Todos nós fazemos isso, com maior ou menor frequência e intensidade,
dependendo de nosso estado de consciência.
Estando dentro de
um relacionamento, normalmente culpamos nosso parceiro ou parceira, mas se não
estivermos nos relacionando, tentaremos colocar a culpa em alguém – em Deus, no
vizinho, no coloca de trabalho, no governo, no mestre Espiritual. Não importa
quem, qualquer um serve! Porque o que queremos é fugir do contato com os
sentimentos negados, nascidos da dor original da separação de nossa
espontaneidade. E são esses sentimentos que dão sustentação às repetições
negativas.
Eu repito: se
existe um situação negativa se repetindo em sua vida, é você quem escolhe estar
nessa situação, por mais que tudo indique a você que a culpa é do outro. Você é
o único responsável por tudo que acontece na sua vida. Portanto, sempre que você
se perceber correndo freneticamente atrás de um objetivo que se distancia em
vez de se aproximar, tornando-se quase impossível de ser alcançado, atente para
a possibilidade haver um desejo deliberado pelo negativo agindo dentro de você.
Enquanto não toma consciência desse desejo, você continua andando em círculos e
alimentando a crença de que é uma vítima indefesa.
Trecho retirado do Livro: Amar e Ser Livre - Sri Prem Baba
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